Crianças Sobredotadas

No passado dia 4 de Novembro, tivemos o prazer de Receber a “Pedagoga de Talentos” Simone Clemens, especialista em Sobredotação na Infância e Adolescência e Guia Montessori, autora do Blog sobre Método Montessori e Superdotação na Infância 

Mesmo que estes casos surjam numa média de duas em cada cem Crianças (2/100), a verdade é que na maioria das salas de aula podemos dizer que existe uma Criança sobredotada. É, por isso, um assunto para o qual todos devemos estar conscientes e alerta, de forma a podermos responder adequadamente a quem nasce com esta característica.

Quando se pensa numa Criança sobredotada das primeiras imagens que surge é de um Einstein em miniatura, agarrado aos livros, um aluno brilhante. Mas não é necessariamente assim, e até se pode dizer que na sua maioria não funciona assim.

Angry and tired schoolboy studying

A verdade é que a maioria das Crianças sobredotadas são alunos com notas médias ou mesmo baixas, o que muitas vezes se explica pelo facto de o sistema de ensino tradicional não estar preparado para ir ao encontro das suas necessidades e interesses específicos.

O que caracteriza então estas Crianças? Como se manifesta esta característica?

Características da Criança Sobredotada

Uma Criança para ser considerada sobredotada não precisa de reunir todas as características enunciadas a baixo. Trata-se sim da conjugação de um número maior ou menor dessas características:

  1. Memória muito acima da média. As Crianças sobredotadas normalmente têm uma memória que se sobressai. Esta memória até aos cinco/seis anos de idade caracteriza-se por ser mais intuitiva (por exemplo, a capacidade de memorizar detalhadamente e com rapidez uma certa história que ouve, o que ocorre de forma totalmente natural, sem qualquer intenção). A partir dessa idade e à medida que a Criança cresce, vai passando a ter um maior controlo sobre o que quer memorizar (por exemplo, se lhe fizermos uma pergunta sobre a história que lemos, em vez de simplesmente responder, cita toda a parte do texto que responde a essa questão);
  2. Alta capacidade de concentração. Esta capacidade de concentração não implica que se concentre em tudo. A Criança consegue sim atingir elevados níveis de concentração em actividades do seu interesse;
  3. Vocabulário vasto e rebuscado para a idade. Utilização de formas verbais e vocabulário mais complexos em comparação com a maioria das Crianças da mesma faixa etária (por exemplo, dizer frases no futuro numa idade em que ainda não é comum as Crianças serem capazes de referir-se a esse tempo verbal);
  4. Não gostar de actividades repetitivas. Estas Crianças podem não gostar de actividades que impliquem um certo automatismo, como acontece tantas vezes na escola (por exemplo, repetir inúmeras vezes o desenho da mesma letra, ou contas). Isto acontece porque para essas Crianças essa repetição não é necessária, pois aprendem com maior rapidez, tornando-se aborrecida e inútil;
  5. Alto sentido ético (conceitos de justiça/injustiça, bom/mau). Podem ser Crianças com uma elevada sensibilidade para conceitos como a justiça, o bom e o mau, a compaixão, podendo-se ressentir com situações que ocorram relacionadas com injustiças;
  6. Sentido de humor aguçado. Algumas destas Crianças também se podem destacar por um sentido de humor diferente para a maioria das Crianças com a sua idade, usando ironias e um humor pouco comum;
  7. Forte sensibilidade. Como referimos acima, estas Crianças podem ser dotadas de uma profunda sensibilidade, que se pode aplicar em várias situações. A emoção de ouvir uma música, ou forte incómodo com barulhos; uma enorme tristeza e lágrimas por lhe terem chamado algum nome, por ter presenciado uma injustiça social; profunda sensibilidade para a agressividade ou até mesmo para actividades físicas mais bruscas;
  8. Interesse por temas complexos. Se há um determinado tema que lhes interessa, como o Egipto Antigo, os astros, dedicam-se a aprofundar esse tema e a adquirir um nível de conhecimento pouco habitual em relação às Crianças da sua idade. Procuram muitas informações, o que muitas vezes pode até representar um enorme desafio para os seus pais e educadores; CB106382
  9. Ideias e soluções inovadoras e pouco comuns. Estas Crianças muitas vezes surgem com ideias a que podemos chamar de totalmente “out of the box”, não se contentando em simplesmente aceitar o que já está pré-concebido. Esta característica, que pode ser fundamental para a evolução da Humanidade, acaba por representar um problema sobretudo em contexto escolar, num sistema de ensino que está preparado para transmitir conteúdos estabelecidos, sem margem para a criação de novas ideias e conhecimento. Há inclusivamente professores que se sentem desafiados quando um aluno questiona, propõe outros caminhos, outras ideias, e a verdade é que normalmente a Criança não quer desafiar, mas simplesmente seguir a sua natureza que a obrigada a esse questionamento, podendo ser extremamente frustrante e difícil ter de simplesmente aceitar o que lhe dizem.

Sobredotado em quê? Quatro Grandes Áreas de Talentos

Segundo Simone Clemens , é possível identificar quatro grandes áreas de sobredotação: Intelectual, Artística, Desportiva e Social.

O talento intelectual é o que mais facilmente se identifica com a tal ideia pré-concebida de sobredotado, sendo uma Criança realmente muito boa na aquisição de conhecimentos, de uma ou variadas matérias.

Já uma Criança onde se evidencie uma sobredotação de cariz artístico, verifica-se uma especial sensibilidade para a Arte nas suas mais variadas expressões, com um sentido estético muito apurado, ou para a Música, podendo por vezes manifestar-se a tal característica da forte sensibilidade a barulhos exteriores.

I love to paint

Existe ainda talento o desportivo, caracterizado por habilidades motoras consideradas fora do normal, acompanhada de algumas características como uma forte propensão à disciplina e ao estabelecimento e alcance de objectivos claros.

Em muitos destes talentos a sociedade pode ser levada a pensar que as Crianças são assim por sofrerem algum tipo de pressão por parte dos pais, o que não é verdade. Curioso é que muitas vezes são os próprios pais que se encontram sob pressão, por estarem perante situações com as quais não sabem lidar (por exemplo, têm um filho especialmente dotado para a Música que sente a necessidade de tocar piano todos os dias das 06:00 às 10:00 para se equilibrar e sentir a sua necessidade interna satisfeita).

Por fim, o talento de cariz social, o mais difícil de reconhecer. São Crianças com um enorme desejo de ajudar, com uma grande complacência para com o próximo. Podem também ser Crianças com uma especial capacidade de unir o grupo, de assumir uma posição de elemento apaziguador, sendo que possivelmente tornar-se-ão adultos que irão dedicar a vida em prol da sociedade.

Como saber se Criança é Sobredotada?

Mais uma vez existe uma espécie de preconceito que dita que o “diagnóstico” de sobredotação consegue-se através dos famosos “Testes de QI” (Quociente de Inteligência). Estes testes medem o grau de inteligência intelectual da Criança, variando consoante a sua idade e confirmando a sobredotação quando atinjem um resultado igual ou superior a 130.

Compreende-se, contudo, que estes testes muitas vezes não conseguem avaliar todo o tipo de aspectos que podem fazer parte das diversas áreas de sobredotação, como seja a capacidade de resolver problemas de facto, a inteligência emocional e social, o talento artístico, centrando-se sobretudo nas competências intelectuais. É por isso mais eficaz no reconhecimento de sobredotação de cariz intelectual.

Além disso, uma avaliação dessa natureza, para além de ser momentânea, pode ainda ser influenciada por diversos factores, sobretudo quando se tratam de Crianças com especiais características (imagine-se uma Criança com sensibilidade acrescida, que não goste da pessoa que lhe está a fazer o teste).

Assim sendo, estes testes podem ser úteis para avaliar o grau de inteligência intelectual da Criança, mas não são determinantes para a sua consideração ou não como sobredotada. Podem no entanto ajudar a “provar” junto de professores ou outros adultos com quem a Criança lida, de que esta tem de facto uma característica e necessidades especiais.

Sobredotação e Género

É possível identificar algumas diferenças no que respeita às características de sobredotados entre raparigas e rapazes. Importa reter que estas diferenças são uma mera tendência, não devendo ser entendidas como uma regra geral. São apenas importantes para uma melhor atenção a eventuais diferenças de comportamento, de forma a permitir uma acção mais rápida em prol do bem destas Crianças.

Posto isto, há uma tendência de os rapazes se preocuparem menos em esconder essa característica, preocupando-se menos com a questão da aceitação social. Isso já não acontece tanto com as raparigas que são mais contidas, pois sentem uma maior necessidade de se sentirem aceites, acabando por se adaptar melhor.

Por outro lado, os rapazes tendem a exteriorizar mais esta situação, tanto positiva como negativamente, enquanto as raparigas tendem a psicomatizar as suas emoções, o que se manifesta por exemplo através de dores, medos concretos, problemas alimentares ou de auto-motivação.

No que respeita aos talentos, nos rapazes evidencia-se mais o foco numa determinada área ou talento, enquanto nas raparigas os talentos são geralmente mais abrangentes, levando muitas vezes a concluir que é essim porque “são esforçadas”.

Compreende-se assim porque estatisticamente se aponte haverem mais rapazes sobredotados do que raparigas. Nos primeiros sobressai-se mais o talento e por isso é mais fácil de ser percebido.

Dizer ou não dizer à Criança?

As Crianças encontram-se numa fase da sua vida onde estão a estabelecer o seu sistema de crenças, a conhecerem-se a si próprias e ao mundo.

Veja-se o exemplo de uma Criança sobredotada com um nível de imaginação sem limites, que se reflecte numa enorme necessidade de contar e imaginar histórias. Estas histórias podem ser contadas e ilustradas de uma forma que aos adultos pode parecer pouco normal, e para as outras Crianças pouco interessante. O que sente esta Criança se ninguém quer ouvir as suas histórias ou jogar consigo um jogo imaginário, que pode chegar a demorar horas e horas? Esta Criança poderá crescer a acreditar que tem alguma coisa de errado consigo, pois ninguém a quer ouvir. E isto é um exemplo que podemos aplicar nas mais diversas situações, mas que ilustra bem o porquê da importância de falar com a Criança.

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É importante que a Criança saiba que nasceu com uma característica especial, diferente, e que isso pode ser uma coisa boa. Se todos nascem com uma especial habilidade ou dom, seja para pintar, para escrever, para cozinhar, para estas Crianças não é diferente. O tipo de dom é que se manifesta de forma diferente, mais intensa.

Pode-se pensar que a Criança ao saber que é “sobredotada” possa começar a utilizar isso a seu favor. Mas é preciso ter atenção ao seguinte: a Criança tem uma percepção diferente desta característica, pois vive-a na pele diariamente. A Criança sabe que é diferente.

Aconselha-se então a explicar à Criança que ela tem uma habilidade especial para aprender a matemática, ou para tocar um instrumento.  Além disso, há várias formas de dizer as coisas: “Todos temos um talento especial. O teu, é aprender muito rápido a fazer contas”.

Ajudar a Criança a aceitar ela própria essa característica com a maior naturalidade possível, é fundamental para aliviar a culpa que tantas vezes surge na sua mente , por pensar, acreditar que algo está errado com ela.

Como ajudar?

  • É fundamental não reprimir. O que move estas Crianças são interesses e necessidades muito concretas. Uma necessidade imensa de pintar, de escrever, de fazer contas, de pesquisar sobre o Egipto Antigo, de correr, de ajudar, necessidades estas que temos de ajudar a suprir para que a Criança se aprenda a auto-regular, se equilibre, esteja feliz; Gifted-child - Greatschools
  • Informando-se, aceitando e ajudando a Criança a aceitar a sua condição de sobredotada, incentivando-a com temas do seu interesse e procurando que desenvolva e aprofunde os seus interesses;
  • Respondendo ao que as suas necessidades lhe pedem (seja ouvir a mesma história cinquenta vezes ou jogar um jogo imaginário durante horas a fio). Isto é essencial para o reequilíbrio da Criança, pois de certa forma é como se estivesse a “encher o seu pote da necessidade” fazendo com que depois disso vá encontrar mais paz e tranquilidade, até mesmo para se dedicar às restantes tarefas e rotinas;
  • Inscrever a Criança em cursos específicos, explicações, estudos concretos sobre os temas do seu interesse;
  • Pensar no adiamento escolar, passando níveis de escolaridade, começando os estudos mais cedo, ou através do enriquecimento curricular, como seja através de trabalhos de casa ou exercícios mais direccionados. Há inclusivamente o chamado sistema de “porta giratória”, onde a Criança poderá adiantar-se em uma ou outra disciplina, mantendo-se na sua turma para as restantes;
  • Outra grande ajuda está nos modelos pedagógicos alternativos, pois proporcionam uma muito maior liberdade de pensamento e acção à Criança, segundo os seus interesses, ritmo e necessidades;
  • Outra ajuda importante é tentar reunir junto da comunidade pais e educadores de Crianças com as mesmas características. Isto é fundamental para a partilha entre os educadores, mas também para as próprias Criança sentirem que não estão sozinhas, que há Crianças com essas mesmas características.

Observar as Crianças é fundamental para perceber exactamente quem temos diante de nós e como podemos responder às necessidades de cada uma. Mas quando se tratam de casos de sobredotação, pode ser difícil para a sociedade compreender ou até mesmo questionar e aceitar certos comportamentos, com consequências muito graves para o desenvolvimento das Crianças, para a sua confiança e auto-estima.

É por isso essencial identificar as Crianças com estas características para se responder adequadamente às suas necessidades, para que possam crescer de forma equilibrada e feliz. Isso consegue-se através de umolhar atendo e do apoio de um “diagnóstico” personalizado e concreto, com profissionais especializados na matéria, como é o caso da Simone Clemens que tem feito um trabalho notável nesta área.

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