Ambiente Preparado no Nascimento

O momento de nascimento de uma Criança é sempre representativo de uma felicidade imensa, ansiedade, nervosismo e muitas questões.

No Congresso Internacional Montessori assistimos a uma palestra ministrada pela Doula Victoria Marshall-Cerins. Foi sem dúvida uma palestra inspiradora e que nos fez pensar e reflectir sobre toda a questão em torno da humanização do parto.

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O Parto Natural e Fisiológico

Como é de conhecimento geral, um parto natural é na maioria das vezes (isto porque existem sempre excepções) a melhor opção para o nascimento de uma Criança, tanto para a mãe como para o bebé. Está associado a melhores resultados de saúde a médio e longo prazos quando comparados com a cesariana. Representa um período de recuperação física e psicológica mais curto, pois em termos psicológicos torna-se mais fácil gerir o parto e tudo o que isso implica. Em situação de parto natural, os efeitos comportamentais promovem o início da lactação de forma natural e facilitam a ligação entre a mãe e o bebé, ocorrendo ainda uma óptima colonização de bactéria quando o bebé passa pelo canal de parto.

Dentro dos partos naturais, existem os chamados partos fisiológicos são cada vez mais raros. Entende-se por parto fisiológico os casos em que ocorre parto natural, sem epidural ou outro tipo de medicação ou estimulação. Estudos revelam que em 2014, na Austrália, apenas 9% dos bebés experimentaram um parto fisiológico. Os partos por cesariana são cada vez mais seguros e fáceis, o que os torna muitas vezes em opção de primeira escolha, além das vezes em que são mesmo necessários por questões de segurança.

 

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Tendência crescente das taxas de cesarianas a nível Global entre 1990 e 2014. (Betran et al. 2016)

 

Humanização do trabalho de parto – Seguir o Sistema Hormonal da Mulher

Eu acho que as maternidades nos hospitais são um equívoco … Não há dignidade nisso. Sou contra crianças nascidas em hospitais … O nascimento não é uma operação. Uma mulher tem um tumor removido; outra traz um bebé ao mundo. O tumor é colocado em álcool para conservação, o bebé é colocado num cesta. Isso não tem respeito pela humanidade.”  Dr. Maria Montessori, The 1946 London Lectures


O início do trabalho de parto é um processo involuntário (falamos num parto fisiológico), onde o sistema hormonal assume um papel crucial.

Ter conhecimento de como funciona o sistema hormonal a mulher, permite ir ao encontro delas no momento do parto através da criação de um ambiente preparado e, assim, facilitar todo o processo, com enormes benefícios para todos, perante a intensidade que assume um momento desta natureza.

Para além do papel que o Assistente de Parto assume aqui, também é muito importante que os próprios pais ganhem essa noção, para que possam lidar com o momento de parto com a maior segurança possível.

Para se tornar mais claro passamos a explicar as principais funções e importância das hormonas que mais influenciam o trabalho de parto, mais propriamente:

  • Melatonina;
  • Oxitocina;
  • Antagonismos adrenalina-oxitocina;
  • Inibição do Neocórtex

 

Melatonina

A melatonina é uma das hormonas essenciais no momento de parto. É também conhecida pela “hormona da escuridão”. Estudos falam-nos da presença de receptores dessa hormona no útero, tornando sua relação com o trabalho de parto bastante íntima. A sua associação à hormona oxitocina promove as contracções uterinas.

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Com bastante frequência ouvimos casos em que o parto ocorreu durante noite. Já se perguntou porquê? Não é apenas coincidência. Durante a noite (na ausência de luz) é quando ocorre a libertação de melatonina (além de que o pico de libertação de oxitocina também ocorrer por volta das 19 horas). Este processo justifica também o porquê de muitos partos que não estavam a evoluir, progredirem após a mãe se recolher a um local escuro ou com pouca luz. A luz forte promove um certo bloqueio de secreção da melatonina, tornando o parto mais “difícil”.

 

Oxitocina

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A oxitocina, como já falada, não pode ser esquecida. Trata-se da principal hormona do parto. A oxitocina é necessária para a contracção uterina e é a principal hormona do amor. Esta hormona é especial quando consideramos a condição para sua libertação, visto este processo depender de factores ambientais. Uma forma fácil de resumir é dizer que a oxitocina é uma hormona tímida. Se entendermos esse ponto, podemos explicar tudo.

Vamos imaginar uma pessoa tímida, que não gosta de se expor ou de ser observada. Assim se comporta a oxitocina, e isso é algo que é desprezado com bastante frequência no momento do parto.

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Instintivamente percebemos a importância do ambiente para a libertação desta hormona em outras situações, como por exemplo na relação sexual onde, por norma, um casal procura um ambiente intimo, facto que já foi observado por antropólogos mesmo em culturas com sexualidade precoce ou livre. Por norma, instintivamente existe um comportamento natural de isolamento no momento da relação sexual. Talvez nunca tenha pensado nisso dessa forma, mas é um facto, precisamos de alguma privacidade para que algumas hormonas se libertem. Por exemplo, durante a relação sexual existe libertação de oxitocina que leva ao orgasmo. Se temos um comportamento de isolamento na relação sexual porque não o ter no momento do parto? Em situações normais sabemos que uma sala de parto, por norma, tem várias pessoas presentes. Esta é uma situação que influência negativamente a libertação desta hormona.

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Para além de todos os inibidores da libertação desta hormona, actualmente vivemos uma era que dificulta ainda mais o processo, a era da epidemia do vídeo. Presentemente é cada vez mais comum fazer-se um vídeo do parto para guardar o momento para sempre. É ainda mais frequente observarmos este tipo de vídeos em casos de parto natural. Observando esses vídeos atentamente a situação quase sempre se repete: vemos uma mulher em trabalho de parto cercada de três ou quatro pessoas, observando, além da câmara que a está a filmar.
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Estes casos tem sido chamados de parto natural porque a mulher está numa banheira, de cócoras, ou de quatro, mas o ambiente é muito pouco natural. Quem olha acha que parto natural é sinónimo de um parto em casa, ou numa banheira, e deixam de perceber o que era importante: a oxitocina é uma hormona tímida. Esta é uma questão que deve ser redescoberta em todas as fases do parto, mas particularmente na fase logo após o nascimento do bebé.

Após o nascimento da Criança é o momento em que a mãe tem a capacidade de libertar os níveis mais altos de oxitocina, mais do que durante o parto ou em qualquer outra situação. Esse pico de oxitocina é vital e necessário para que haja um pós-parto sem perdas de sangue.

Além disso, por ser a oxitocina a hormona do amor, é importante saber que o maior pico da sua libertação ocorre imediatamente após o nascimento do bebé.

Hoje em dia esse pico é praticamente impossível de acontecer porque a condição para ele ocorrer é o contato pele-com-pele com o bebé, que a mãe possa olhar nos olhos da Criança, sentir o seu cheiro, sem qualquer distracção. Contudo, os cientistas tornaram isso impossível com as crenças e práticas de separar o bebé da mãe após o parto. Isso é prejudicial. Da mesma forma, o colostro (primeiro leite materno), que o bebé procura quase imediatamente após o parto, é fundamental para este processo mas que só pode ocorrer se o bebé estiver nos braços da mãe.

 

Antagonismos adrenalina-oxitocina

A libertação de adrenalina é outra questão muito importante neste processo do trabalho de parto. Quando os mamíferos libertam adrenalina, não conseguem libertar oxitocina. É chamada de “hormona da emergência”, e os mamíferos libertam-na em situações como de medo ou frio.

Ou seja, no momento do parto a mulher precisa de se sentir segura sem se sentir observada, caso contrário ocorre um processo chamado “antagonismo adrenalina-oxitocina”.

Infelizmente, apesar do desenvolvimento científico que observamos actualmente, ainda existem dados científicos que não são tidos em conta na obstetrícia. Por exemplo, existem livros sobre parto natural que comparam dar à luz com correr uma maratona, e o conselho para a mulher em trabalho de parto é uma alimentação rica em hidratos de carbono. Contudo, esse tipo de recomendação é inaceitável no contexto científico actual, uma vez que o pré-requisito para que o parto ocorra adequadamente é um baixo nível de adrenalina para garantir que os músculos voluntários estão em repouso e relaxados, ou seja, não necessitem de glicose. Como é fácil de perceber, a necessidade de ter um relaxamento dos músculos voluntários não condiz com a ideia de correr uma maratona. Esse tipo de recomendação além de ser contraproducente, pode ser até perigosa. Em estudos da década 80 observa-se que a glicose e os açucares durante o parto podem tornar-se perigosos, pois soro com glicose na veia é um factor de risco para icterícia e hipoglicemia no recém-nascido, pois o bebé recebe uma dose elevada de glicose, mas a insulina materna não atravessa a placenta. Este é só um exemplo para mostrar como dados científicos simples, como o antagonismo oxitocina-adrenalina, não estão bem divulgados e/ou disseminados.

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Inibição do Neocórtex 

Durante o trabalho de parto a mulher deve sofrer a menor estimulação intelectual possível. É muito importante que se trabalhe o ambiente do nascimento de forma a inibir o funcionamento do Neocórtex.

É durante a fase de inibição do neocórtex, onde a mulher se abstrai dos pensamentos e perde a consciência do que acontece no meio envolvente, que o trabalho de parto evolui de forma mais fácil devido à entrega a este processo fisiológico.” Michel Odent, Nascer Melhor 2

Os seres humanos têm maior propensão para partos difíceis, em comparação com outros mamíferos e outros primatas. Uma das razões da dificuldade humana no período do trabalho de parto advém do nosso grande neocórtex, o cérebro novo, o cérebro do intelecto. Os humanos são chimpanzés com grandes neocórtex.

Mas por que o grande neocórtex é uma deficiência durante o trabalho de parto? Porque durante este momento, ou numa experiência sexual, as inibições vêem do neocórtex. Este tipo de inibições são necessárias e importantes porque nós precisamos de “desligar” a parte intelectual durante este tipo de acções.

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Ilustração do cérebro de um rato, de um macado e de um humano, respectivamente.

Contudo, a natureza achou uma solução para superar esta questão: durante o parto o neocórtex deve parar de funcionar. O nascimento é um processo primitivo e durante esse processo o neocórtex deve estar desligado.

Em situações em que a mulher está em trabalho de parto sozinha é perceptível a forma de como ela se desliga do mundo e esquece o que está a acontecer à sua volta. Por vezes o seu comportamento pode, inclusivamente, ser considerado inaceitável para uma mulher “civilizada”: ela grita, é pouco polida, assume diferentes posições. Isto acontece porque o neocórtex reduz a sua actividade, o que é essencial na fisiologia do parto.

 

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Representação do cérebro ilustrando os seus principais constituintes. Nesta representação é possível perceber o quão maior é o nosso neocortéx quando comparado com o de outro mamífero.

Uma mulher em trabalho de parto precisa, em primeiro lugar, de ser protegida contra qualquer estímulo do neocórtex. Um dos estimulantes do neocórtex é a linguagem, que é aqui processada.

O neocórtex é também estimulado pela luz, sendo muito sensível ao estímulo visual em geral. É interessante observar como uma mulher em trabalho de parto que não é guiada, não é observada, normalmente encontra de forma instintiva uma posição na qual elimina os estímulos visuais. Coloca-se de cócoras, inclina-se para a frente, deixa o cabelo cair sobre o rosto e assim não vê nada e pode esquecer o que a rodeia.

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O que é um/a Assistente de Nascimento ou Doula

A palavra Doula vem do grego e significa “mulher que serve”, sendo que hoje é utilizada para se referir à mulher sem experiência técnica na área da saúde, que orienta e assiste a nova mãe no parto e nos cuidados com bebé

O seu papel no momento do nascimento é de extrema importância, isto porque:

  • Transmite confiança e humildade antes do processo;
  • Prepara o ambiente do nascimento da forma mais adequada;
  • Protege a mãe contra perturbações;
  • Usa observações discretas para identificar as necessidades da mãe;
  • Identifica e remove obstáculos no ambiente;
  • Oferecer conforto e tranquilidade;
  • Oferecer suporte emocional, físico e informativo.

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Actualmente a maioria dos partos acontecem em ambiente hospitalar e rodeado por especialistas: obstetra, enfermeira, pediatra, etc., e cada um com a sua especialidade e preocupação técnica pertinente. O cuidado com o bem estar emocional da progenitora acaba por ficar perdido no meio ambiente impessoal que reflectem os hospitais. Estes ambientes impessoais tendem a aumentar o medo, o desconforto, a dor e a ansiedade daquela que está a dar à luz e consequentemente aumentando a possibilidade de complicações obstétricas.
A doula veio justamente para preencher esta lacuna, colmatando a procura por emoção e afecto neste momento de intensa importância e vulnerabilidade. É o recuperação de uma prática existente antes do parto medicamente assistido.


Situação em Portugal

Em Portugal o caminho para uma maior humanização do parto está a ser feito. Já é possível fazermos o nosso plano de parto e, em alguns hospitais, a presença de doulas durante o parto medicamente assistido. Não são todos os locais que não asseguram estes direitos, mas já vão existindo e com a crescente procura e interesse por este tema acreditamos que num futuro próximo tudo se tornará mais fácil.

O excelente exemplo de parto humanizado é o projectos das Mães D’água.

As Mães D’Água são um movimento cívico movido pela paixão pelo parto na água. O grupo foi criado em Junho de 2014 e trabalha desde então em três missões: inspirar e empoderar a mulher; promover o parto natural/na água; criar mudança efectiva no SNS português trazendo de volta o parto na água aos hospitais públicos.Mães D’Água

Como este existem outros projectos nacionais que visam um parto mais natural e uma experiencia cada vez mais tranquila e humanizadora para a mãe.


Em suma

Para que o parto seja um momento de tranquilidade e felicidade para o casal existem algumas “dicas” de preparação do ambiente onde se vai realizar o nascimento. Este ambiente preparado tanto pode ser em casa como na clinica ou hospital onde os pais decidiram ser o melhor local para receber o bebé. Ter um ambiente preparado não implica ser apenas em caso de parto no domicilio. Aqui fazemos um pequeno resumo de todas as dicas que a Doula Victoria Marshall-Cerins facultou durante o Congresso:

  • Manter o local escuro;
  • Fornecer um ambiente quente e confortável à mãe;
  • Existência de um número reduzido de pessoas a assistir (idealmente apenas a/o assistente/doula e outra pessoa)
  • Promover a privacidade da mulher;
  • Evitar a comunicação verbal;
  • O ambiente deve ter a menor distracção visual possível.
  • Presença de banheira para utilização durante o trabalho de parto.

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