Testemunho – “Cientista e pai: A minha caminhada da ignorância ao entusiasmo por Montessori”

No passado mês de Julho estivemos no Congresso Internacional Montessori em Praga, e foram inúmeras as palestras a que assistimos e os conhecimentos que adquirimos, sendo enorme a vontade de partilhar tudo isso.

Para começar esta jornada de partilha optámos por vos contar um pouco sobre uma cujo o título bastante sugestivo é “Cientista e Pai: A minha caminhada da ignorância ao entusiasmo por Montessori.

Congresso Internacional Montessori

Tratou-se do testemunho de um pai (Mario Valle), que profissionalmente é cientista numa grande empresa. Como para tantos de nós, o seu percurso pelo mundo Montessori começou após a entrada do seu filho para escola, em 2005, quando tinha três anos. A mulher de Mario era professora numa escola pública de ensino convencional, e ambos são de nacionalidade italiana (país de origem de Maria Montessori).

Estavam ambos convencidos de que isso seria o melhor para o filho, mas com o passar dos dias, começaram a perceber que algo não estava a correr bem. Esta Criança após duas semanas da sua entrada no jardim de infância, começou a demonstrar alguns comportamentos que os alertaram, tais como uma perda de entusiasmo geral, tanto na escola como fora dela, e o facto de chorar sempre que era altura de ir para a escola.

Tendo este pai inicialmente pensado que poderiam ser comportamentos normais dentro do processo de adaptação à escola e que iria acabar melhorar, acabou por compreender que este sentimento era continuado, e após fazer algumas visitas à escola para tentar perceber melhor o que se passava, apercebeu-se da incapacidade da professora em lidar com Crianças, tendo dessa forma destruído por completo a auto-estima desta Criança.

Assim que tomou consciência do que estava a acontecer, retirou o seu filho desse Jardim de Infância, não obstante as explicações da sua mulher de que era um problema que iria continuar porque se tratava de um problema no sistema educativo em geral e não apenas de uma professora em concreto.

Tendo este problema em mãos e não aceitando ter que se resignar sem mais a esta situação, iniciaram a sua busca por novas escolas e novos modelos. Um dia, a sua mulher lembrou-se de que quando se estava a formar ouviu falar vagamente da Pedagogia Montessori, mas nunca a tinha explorado a fundo. Após esta sugestão, Mario decidiu investigar um pouco mais. Apesar de viverem em Itália, apenas conhecia Montessori porque aparecia numa nota italiana, mas não conhecia o seu trabalho.

Nota Italiana                                      Nota Italiana com a figura de Maria Montessori.

Após alguma pesquisa sobre esta pedagogia decidiram ir visitar um Jardim de Infância Montessori, tendo ficado fascinados com o que viram. Ficaram impressionados com o silêncio e a concentração que existe numa sala Montessori, tendo o ambiente escolar capturado-os por completo e ficado convencidos, após esta primeira visita, de que poderia ser uma excelente alternativa para o filho.

Logo que o filho começou no Jardim de Infância Montessori as diferenças nesta Criança começaram a ser evidentes. Ficava muito feliz de ir para escola e os pais encantados com a forma como os professores respeitaram o seu tempo para se adaptar a este novo conceito de educação.

Com o passar do tempo e com a felicidade visível que o filho demonstrava diariamente, este cientista começou a ficar curioso com este Método. Era visível que a experiência do filho no contexto escolar estava a ser completamente diferente do que a que ele havia tido, mas como curioso e cientista que é, as palavras não lhe chegavam. Mario tinha que ver e perceber o que havia de diferente nesta Pedagogia.

No seu tempo a escola era monótona, e todos queriam que a escola terminasse para irem para casa. Com o seu filho isso não estava a acontecer. O filho chegava a casa fascinado porque tinha passado o dia a “brincar” com a matemática e dizia que a matemática era “fixe”. Na escola convencional os professores diziam o que os alunos tinham de fazer, como fazer, e por que ordem fazer. Isso não acontecia nesta escola. Nesta escola não existiam manuais escolares nem trabalhos de casa.

Começou então a sua investigação “científica” sobre a Pedagogia. Questionava-se diariamente: “O que é que esta Pedagogia tem de diferente?”,Porque anda o meu filho tão feliz com a nova escola?”.

Um dia a escola teve a brilhante ideia de começar a organizar encontros com todos os pais onde ensinavam-nos a utilizar os materiais Montessori, explicavam as suas finalidades e como deviam ser apresentados.

Grazia FrescoGrazia Honegger Fresco fazendo apresentação aos pais de como utilizar materiais Montessori.

Este pai não perdeu nenhum desses encontros. De início estas apresentações de materiais não lhe despertavam muito interesse, mas havia alguma coisa que o continuava a deixar curioso, havia ali algo diferente que ele queria perceber o que era. Como era possível dar vida a estes materiais? Como era possível objectos aparentemente tão simples transmitirem conhecimentos e tanto fascínio a estas Crianças?

Foi então que percebeu de que não se tratava apenas de uma pedagogia de ensino alternativa, mas sim de um modo de vida, de uma visão completamente diferente perante o ensino e perante a Criança. Aqui o seu fascínio começou a ir além do método em si. Começou a ficar fascinado também por Maria Montessori, a sua capacidade de desenvolver tanto os materiais como o método e a forma como posteriormente o aplicava. Tudo isto era espantoso!

Num dos encontros que a escola organizara de apresentação de materiais, Mario e a sua mulher ficaram em choque quando se aperceberam da facilidade que uma Criança ali presente teve em adquirir uma determinada competência, competência essa que os dois não tiveram uma capacidade tão rápida de apreender. Aqui tudo começava a ficar mais claro e óbvio. Ele percebeu que Maria Montessori fazia com os materiais o mesmo que ele fazia com os computadores. O trabalho de Mario na empresa onde trabalha é transformar a informação numérica que os computadores geram diariamente em algo que os cientistas consigam perceber. Ele compreendeu que Maria Montessori fazia o mesmo com as Crianças. Ela fazia com que as Crianças adquirissem as competências teóricas através da memória visual (por exemplo).

Um exemplo claro disso é a imagem apresentada em baixo. Por norma este tipo de competência é ensinada através de tabelas de números, confusas para muitos de nós, como podemos ver no lado esquerdo da imagem. Mas Maria Montessori ensina esta competência recorrendo aos materiais demonstrados no lado direito da imagem. Através da disposição e das cores torna-se muito mais fácil adquirir esta competência, é muito mais apelativo “brincar” com a matemática desta forma.

Matematica em MontessoriDiferença entre a apresentação de uma matéria de matemática no Ensino Convencional e no Ensino Montessori.

Compreendendo cada vez melhor a base da Pedagogia e tendo vivenciado a experiência de perceber a facilidade com que as Crianças apreendem as matérias, especialmente as matemáticas, a mulher de Mario, Antonella Galgano, realizou um estudo com o titulo “O matemático inesperado: conhecimentos matemáticos em Crianças de 12 meses a 5 anos.” onde observou a forma de como Crianças dos 12 meses aos 5 anos aprendiam matemática.

il matematico inaspettato

Maria Montessori tinha uma personalidade multifacetada, era médica, feminista, mãe, uma cidadã do mundo, com interesse em assuntos que iam desde a espiritualidade até à tecnologia. Dada esta versatilidade, para Mario torna-se fácil relacionarmo-nos ou identificarmo-nos com Maria Montessori, pois temos várias formas e diferentes perspectivas de o fazer. Mario não se assume como um pedagogo ou professor Montessori, apenas mostra o seu ponto de vista em relação a este assunto, pois é pai, cientista, cidadão do mundo, características que acaba por ter em comum com esta fascinante mulher.

Mas as suas questões e curiosidades sobre este método de ensino não pararam de surgir, até mesmo quando partilhava esta experiência com outros pais que não conheciam a Pedagogia. Incontornavelmente, estas são algumas das questões que foram surgindo : “O que é que acontece depois da Escola Montessori?”, “Como materiais antigos, frios, duros, podem ensinar e desenvolver a imaginação da Criança?”, “Uma Criança que gosta de desenhar ou de ler vai fazer apenas isso?”, “Como um professor cuida de todas as Crianças se elas escolhem livremente o que vão fazer?”. Estas são algumas das questões que Mario foi tentando responder ao longo do tempo e cujas respostas estão no seu site.

Mario percebeu que esta Pedagogia apresenta excelentes resultados porque tem uma ligação directa e muito forte com o funcionamento da mente humana, a forma de como os materiais são utilizados e apresentados fazem desencadear todo um processo fascinante. Na sua investigação e ao longo do seu percurso conversou com outros cientistas, médicos, etc., tendo havido um psicólogo que corroborou toda esta informação, “o ser humano aprende mais ao fazer do que ao ler“, que, no fundo, é o que defende Maria Montessori.

Nas Escolas Montessori as Crianças também têm dúvidas, não aprendem tudo na primeira vez em que o Guia lhes apresenta um material, são Crianças como todas as outras. O que difere nestes casos é que as Crianças são convidadas a investigar e a pensar sobre as questões, as respostas não lhes são oferecidas. Numa sala Montessori existem várias faixas etárias e este facto também as ajuda a consolidar conhecidmentos, visto serem as Crianças mais velhas a ajudar as mais novas. Está provado cientificamente que quando estudamos algo para posteriormente ensinar a sua absorção é feita de forma muito mais eficiente. Montessori é essencialmente uma atitude baseada em conhecimento cientifico, um estilo de vida e não um tipo de escola.

O filho de Mario terminou o seu caminho em Escolas Montessori quando entrou no Ciclo, o que acabou por ser uma grande mudança para esta Criança. No entanto, com o tempo foi conseguindo adaptar-se à estrutura convencional de ensino, e neste momento ,que frequenta o Ensino Secundário, conseguem perceber nitidamente o que a Pedagogia Montessori lhe deu: os conhecimentos adquiridos, os métodos apreendidos e a forma como foram consolidados são uma enorme vantagem para este agora adolescente, e que irá recordar e levar para a vida toda.

Para Mario o mais importante é a viagem e não o destino, e esta sua viagem pelo mundo Montessori tem sido fascinante e a verdade é que nunca chegará ao conhecimento total desta Pedagogia. Maria Montessori tinha uma mentalidade brilhante e tudo o que fez foi sem dúvida um marco para a Humanidade. Da sua parte, espera conseguir disseminar a Pedagogia e despertar a curiosidade pela mesma por onde quer que vá passando.

Este foi o testemunho incrível de um pai que tropeçou em Montessori pelo seu filho e  que desde aí nunca mais conseguiu desligar-se deste caminho.

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