Negligência Emocional na Infância

Actualmente sabemos como pode ser exigente educar uma Criança. No meio da correria do dia-a-dia, das mil e uma opiniões que todos sabem dar, de outros exemplos com os quais nem sempre concordarmos, tudo isto torna a nossa tarefa cada vez mais difícil, ou pelo menos mais confusa. No entanto, devemos ter sempre em mente que as bases começam em casa e connosco.

Um conceito que é muito importante desde pequeno e ao qual nem sempre damos grande importância, é a assertividade. Neste contexto, uma Criança assertiva é aquela que demonstra capacidade de aplicar os seus direitos e vontades da forma mais correcta respeitando os que se encontram à sua volta. Por exemplo, um adulto capaz de dizer “não” e que sabe o que quer, demonstra uma assertividade saudável e essa capacidade deve ser trabalhada desde a infância.

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Uma educação emocional pobre na infância dará origem a adultos com dificuldade em reconhecer os seus direitos e vontades e em defendê-los de forma a que ninguém os viole ou se imponha facilmente.

Como podemos então ajudar as nossas Crianças de forma a que se tornarem adultos assertivos e emocionalmente saudáveis?

Uma questão a ter em atenção é a negligência emocional. Mas e o que é isto de negligência emocional na infância?

Muitas vezes assistimos a situações onde uma Criança que está a chorar por um motivo aparentemente banal para nós, como ficar sem um brinquedo, ou querer o que um colega tem. Frequentemente nós, adultos, desprezamos e desvalorizamos estas situações, embora com a melhor das intenções, a de ajudar a Criança a aprender a gerir o que sente perante as situações que lhe surgem.

Como Maria Montessori sublinhou tantas vezes, as Crianças não são adultos em ponto pequeno. Não podemos esperar delas aquilo que é dado como adquirido por nós, adultos, que um dia também já fomos Crianças. As Crianças encontram-se num “espaço” muito próprio. Um espaço onde os sentidos são experenciados e as emoções são sentidas com intensidades completamente diferentes.

Nesse espaço tão único do desenvolvimento humano, ficar sem um brinquedo, ver recusado um qualquer desejo, são situações sentidas e exteriorizadas como verdadeiras afrontas ao seu pequeno ser, e o “drama” que vemos mais não é do que uma reacção de um cérebro ainda imaturo no que respeita à gestão das emoções. Tal como tudo, é um processo de aprendizagem pelos quais estão a passar.

E por isso a tentação de responder a esses impulsos emocionais com frases como “não é para tanto”, “não chores sem motivo”, “olha a fita que estás a fazer”, “não uses isso que ficas feio”, “és um mau menino”, não podem ser compreendidas pelas Crianças com a mesma intenção com que as dizemos.

Podem, pelo contrário, transmitir uma ideia de que o que está a sentir não é correcto. E, desta forma, começam a tender para esconder as suas emoções com medo da reprovação ou mesmo ridicularização por parte do adulto. São atitudes que sem querermos marcam as bases emocionais da Criança, que irão criar a crença de que as suas reacções não são adequadas e deverão contê-las e reprimi-las.

Algumas das consequências de não se levar a sério as emoções sentidas pelas Crianças são as seguintes:

  • Não saberão reconhecer as suas emoções e sentimentos;
  • Não serão capazes de expressá-los de forma saudável;
  • Serão adultos que deixarão que os seus pares os humilhem;
  • Ou em contrário adoptarão uma postura de agressividade;
  • Terão uma autoestima deficiente;
  • Serão adultos que acham que não merecem ser amados.

 

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Mas podemos trabalhar tudo isto em casa de forma a prepararmos adultos saudáveis a nível emocional.

As nossas Crianças devem ser vistas como seres únicos que são e que se encontram num estádio muito particular do ser humano, que deve ser respeitad.

Existem algumas bases importantes para promovermos um bom desenvolvimento da assertividade e de uma saúde emocional saudável.

Uma base importantíssima passa por darmos valor ao que as nossas Crianças estão a sentir, assim como às suas opiniões e a ensinarmo-las a reconhecer o que sentem.

Devemos estimula-las a pensar no que estão realmente a sentir para perceber a melhor forma de lidar com o momento.

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“Sentimentos dentro do meu coração e na minha cabeça”

Uma forma de nos ajudar neste caminho, é por exemplo através de livros. Existem livros que falam sobre sentimento e emoções, e que podem ser utilizados pelas Crianças para ajuda-las a definir as suas emoções e, assim, aprender a compreende-las e aceita-las melhor. Em situações de crise, que podem também ser ajudadas com recurso à Mesa da Calma da qual já falamos aqui e aqui.

O livro “Sentimentos dentro do meu coração e na minha cabeça” – de Richard Jones e Libby Walden é um dos exemplos que podemo utilizar.

Devemos tentar questionar a Criança neste sentido nos momentos de “crise” de forma a ajuda-las a criar segurança em si próprias e na sua auto-estima. Porque não colocar algumas questões como “O que estás a pensar?” ,“O que estás a sentir?”, “O que queres dizer?”, “Do que é que precisas?” e tentar guia-las neste caminho de descoberta das suas emoções, das suas vontades e dos seus quereres.

Todo este caminho irá proporcionar as bases necessárias para que percebam e estejam conscientes dos seus sentimentos e de que as suas necessidades realmente importam. Isto dará origem a adultos que saberão respeitar os de mais e acima de tudo saberão que merecem ser respeitados pelos seus pares, sabendo impor as suas opiniões e ideias sem de forma civilidade e tolerantes para com a diferença de pensamentos.

Para além de tentarmos, assim, evitar que as nossas Crianças crescam com problemas ao nivel da sua auto-estima e segurança, estaremos a dar um forte contributo para uma das nossas maiores missões nos tempos que correm e que já era apontada por Maria Montessori: “Educar para a Paz”. Para isso é fundamental criar as condições para a paz interior de cada adulto e de cada Criança. Pequenas atitudes hoje farão toda a diferença amanhã.

 

 

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