“Respire, Sorria e vá Devagar”

“Respire, Sorria e vá devagar”, esta é uma frase deliciosa de um monge vietnamita. Pode ser aplicada em diversos momentos da nossa vida, mas aqui vamos direciona-la para as nossas Crianças.

Na nossa procura por saber cada vez mais e mais sobre as nossas Crianças, sobre Maria Montessori e sobre todo este mundo, encontramos este excelente artigo “Sobre morangos, crianças e paz” escrito pelo Blog Lar Montessori. Neste artigo mencionam por sua vez um artigo muito interessante que nos fala sobre o funcionamento cérebro Is the Default Mode of the Brain to Suffer?.

Aqui, Evan Thompson explica alguns mecanismos do nosso cérebro, sendo que um deles é o de criar realidades. Com certeza já deu conta de estar a pensar no seu prato favorito e quase começar a salivar. Pensou no seu aspecto, cheiro, sabor. “Hum! Que delicia!”. E não ocorreu também estar a pensar nesse seu prato favorito, ir a um restaurante para o saborear mas quando dá a primeira garfada não era bem aquilo que tinha imaginado e acaba por se desiludir?

Pois é, não passou de uma imagem mental que criou.

Mas o nosso cérebro não faz isto apenas com a comida, faz isto com tudo, incluindo com a imagem que temos de nós mesmos. Assim como também ocorre com a imagem mental que temos das Crianças.

Nós, na maioria das vezes, não vemos as Crianças que existem, mas sim as que construímos de forma automática nos nossos cérebros.

É essa imagem mental que deve levar broncas porque se comportou mal. É dela que esperamos boas notas na escola. É ela que nós vemos colando durante uma prova. É dela que desconfiamos quando recebemos um trabalho e não acreditamos em sua autoria. É ela que amamos.” Lar Montessori

Uma das características que tornava especial Maria Montessori era conseguir distanciar-se destas ideias pre-concebidas do cérebro da Criança e olhar para ela como ser único que é.

Quando eu estou com as crianças, eu sou ninguém, e o maior privilégio que tenho quando me aproximo delas é ser capaz de esquecer até mesmo que eu existo, porque isso me permitiu ver coisas que eu perderia se eu fosse alguém – coisas pequenas, verdades simples, mas muito preciosas.” – Maria Montessori, A Educação e a Paz

Na correria do dia a dia estamos tão acostumados a olhar para tudo através das formas pre-concebidas que temos, que acabamos por perder a essência do momento. Por exemplo, quando estamos a ir para o trabalho, fazemos aquele caminho todos os dias, acabamos por ir no chamado “piloto automático”. Não tomamos atenção ao caminho, ao que se está a passar à nossa volta. Vemos o que nos rodeia mas sem prestar atenção aos detalhes, e esses detalhes inconscientemente são preenchidos por memórias e conhecimentos prévios que adquirimos.

Já parámos para pensar que vemos também assim as nossas Crianças? Sejam elas os nossos filhos, os nossos alunos ou outras Crianças. Este modo de olhar/observar é insuficiente. Para observarmos uma Criança como ser único que é precisamos de olhá-la como tal, como se fosse a primeira vez a observá-la.

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Tenho de ter uma mente silenciosa. Uma mente silenciosa quer dizer que vou observar de forma tal que não trarei nenhuma experiência pregressa para essa experiência nova. Eu vou libertar-me de todas as ideias preconcebidas sobre o que é uma sala de aula, ou o que é uma criança, você é novo, fresco, e seus olhos são novos, e você aceita situações, seres humanos, as crianças, condições, de uma forma totalmente diferente.” Silvia Dubovoy

Partindo desta premissa de olharmos para cada Criança de forma individual, seguindo o exemplo de Maria Montessori, ficará mais fácil não perder a calma com uma Criança. As nossas Crianças são o que elas realmente são e não a ideia que criamos delas. Como acontece com o prato favorito no restaurante, talvez a culpa não seja do cozinheiro, mas sim da ideia que criámos daquele prato.

Chögyam Trungpa foi um importante implementador do budismo tibetano nos EUA e fala que para nos ajudar nesta tarefa a meditação pode ser uma ferramenta muito importante. O nosso padrão de pensamento e forma de levar a vida é muito rápida e até mesmo manipuladora. No meio deste turbilhão que é o nosso quotidiano também é necessário parar um pouco e silenciar a nossa mente, desacelerar os pensamentos.

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Em vez de executar as ações naturais de todos os dias, sem pensar, ou de maneira imperfeita, acreditamos que fazê-las de forma atenta, consciente, cuidadosa e tão perfeita quanto possível, é o primeiro passo para alcançarmos a perfeição. Esse é um dos caminhos, existem muitos. Devemos fazer as coisas porque devemos fazê-las, e devemos fazê-las como elas vierem. Devemos usar tudo, para que aperfeiçoemos tudo. Tornar-se mais consciente, esse é o caminho da perfeição; quanto mais ideias, quanto mais ações executamos, mais vamos dominando, mais perfeitos nos tornamos. Essa é a orientação no sentido da perfeição. […] O caminho da perfeição é aquele no qual todas as ações que executamos em nossas vidas, nós pensamos, e executamos como um meio de chegar à perfeição.” – Maria Montessori, Creative Development in the Child

Esta prática de mindfulness, este acalmar da mente nem sempre é fácil, mas é um caminho. O primeiro passo é a tomada de consciência de que as nossas Crianças precisam de nós de mente livre, sem ideias pre-concebidas, sem comparações, sem cérebros acelerados a pensar nas mil e uma coisas que já fizemos, nas que ainda temos para fazer, nos problemas do trabalho, no filho do amigo que já sabe ler ao contrário do nosso filho, entre tantos outros pensamentos.

Andar na praia, sentir o chão frio no pé descalço, sentir o sol quente na pele, o verdadeiro sabor e textura de uma bolacha banal que comemos todos os dias mas nunca a saboreamos de olhos fechados, isto são pequenos prazeres que ignoramos com as nossas ideias pre-concebidas.

O problema é que fazemos isto com tudo. Ver o brilho do olhar de uma Criança, apreciar o seu riso genuíno, ver como dança ao som da sua música preferia, observá-la a brincar no seu quarto. Isto são verdadeiros milagres que ignoramos todos os dias.

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O Educar para Paz também é isto. Nem sempre é um caminho fácil mas o caminho para a Paz faz-se em cada dia, em cada brincadeira, em cada vez que respiramos fundo e não perdemos a paciência com as nossas Crianças.

Vamos embarcar nesta aventura juntos? “Respire, Sorria e vá Devagar”

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